quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Hoje, dia 20 de Agosto de 2013, o Senhor chamou para junto de Si o amado irmão José Hilário, da Igreja Batista Regular no Monte Santo, em Campina Grande. Todos os que compõem a APIBRE agradecem ao Senhor pela oportunidade de ter conhecido esse amado irmão, dedicado do trabalho na obra, em especial na área da música, tendo organizado e dirigido o coral Messias, de sua Igreja. Vamos orar por sua família, em especial por sua esposa, irmã Geruza, para que Nosso Senhor Jesus Cristo conforte neste momento de dor e saudade, mas estamos certos que nos encontraremos novamente, quando estivermos diante do nosso Redentor.


Preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus santos.
Salmos 116:15

terça-feira, 7 de maio de 2013

BASES TEOLÓGICAS PARA O CULTO DOMÉSTICO



UMA FAMILIA QUE SABE ORAR
 
 O Fato de está tratando sobre a família este mês (maio /2013) em nossa igreja fez-me ler alguns artigos dentro deste assunto. Nessa busca encontrei este livro disponibilizado na Editora fiel que fala de um assunto muito esquecido em nossos dias – o culto doméstico. Espero que as considerações do autor neste pequeno artigo despertem os irmãos a ler todo o livro, e a colocar em prática os seus ensinos. Deus abençoe sua leitura. Pr. Valdir Gomes.
“Toda igreja deseja ter crescimento. No entanto, é surpreendente como poucas delas buscam promover isso por meio de uma ênfase na necessidade de se criar os filhos na verdade da aliança. Poucos lutam com o porquê de muitos adolescentes se tornarem membros apenas nominais das igrejas, com uma mera noção de fé ou abandonarem a verdade evangélica em troca de doutrinas não bíblicas e modismos na adoração.
Creio que uma das principais razões para esse fracasso é a falta de ênfase no culto doméstico. Em muitas igrejas e lares, ele é algo opcional ou, no máximo, uma prática superficial, como uma breve oração de agradecimento antes das refeições. Consequentemente, muitas crianças crescem sem nenhuma experiência ou impressão da fé cristã e da adoração como uma realidade diária. Quando meus pais comemoraram suas bodas de ouro, todos nós, seus cinco filhos, decidimos agradecer a eles pela mesma coisa, sem consultarmos um ao outro. Surpreendentemente, agradecemos nossa mãe por suas orações, e nosso pai por sua liderança no culto doméstico de domingo à noite. Meu irmão disse:
“Pai, a lembrança mais remota que tenho é a de lágrimas escorrendo pelo seu rosto enquanto você nos ensinava sobre como o Espírito Santo guia os crentes, nas noites de domingo, quando usava o livro O Peregrino”. Quando eu tinha três anos de idade, Deus o usou em nosso culto doméstico para me convencer que o cristianismo era verdadeiro. Não importa o quanto tenha me desviado nos últimos anos, nunca pude questionar seriamente a veracidade do cristianismo e
quero lhe agradecer por isso”.
Poderíamos ver um reavivamento entre os nossos filhos? Que possamos nos lembrar que Deus usa a restauração do culto doméstico como um prenúncio de avivamento na igreja. Um exemplo disso é a aliança da congregação puritana, de 1677, em Dorchester, Massachusetts, que incluía o compromisso de: reformar nossas famílias, empenhando-nos para ter um cuidado consciente para manter a adoração a Deus em nosso culto doméstico; comportando-nos
em nossa casa com corações perfeitos; executando todos os afazeres domésticos com fidelidade; educando, instruindo e exortando nossos filhos e família a guardarem os caminhos do Senhor.
Conforme as coisas são em casa, assim o serão na igreja e na nação. O culto doméstico é o fator que determina como as coisas andam no lar. É claro que o culto doméstico não é o único fator determinante para isso. Ele não substitui outras obrigações paternas.
O culto doméstico sem o bom exemplo dos pais é fútil. O ensino espontâneo que surge ao longo de um dia
comum é crucial. Todavia, separar momentos para o culto doméstico também é importante. Ele é a base bíblica da criação de filhos”.

Retirado do Livro Adoração no Lar,  Traduzido do original em inglês, Family Worship por Joel R. Beeke, e publicado em português pela Editora Fiel. Compre o Livro. Se a editora achar que devemos retirar este artigo, por favor, nos comunique.

terça-feira, 5 de março de 2013

SOBERANIA DIVINA E RESPONSABILIDADE HUMANA



SOBERANIA DIVINA E RESPONSABILIDADE HUMANA 

(continuação...)

           Analisemos esse ponto com mais extensão. Se considerarmos a nossa função como sendo não a de simplesmente apresentar a Cristo, mas de efetivamente produzir convertidos em série - evangelizar não apenas fielmente, mas também de ser bem sucedido - estaríamos revelando uma abordagem meramente pragmática e calculista da evangelização. Concluiríamos daí, que o nosso arsenal básico de estratégias, tanto para a evangelização pessoal bem como para a pregação em público, deve ser duplo. Não nos bastaria meramente ter compreensão clara do sentido e da aplicação do evangelho, mas também uma técnica irresistível para induzir a resposta. A ordem seria, então, de nos empenharmos na árdua tarefa de desenvolver e testar essa técnica. Teríamos que estar reavaliando toda a obra evangelística, nossa própria prática, bem como a prática dos outros, não só de acordo com o critério do conteúdo da mensagem pregada, mas também dos resultados visíveis alcançados.
Se os nossos esforços não estiverem trazendo frutos, isso teria que nos fazer chegar a conclusão de que a nossa técnica ainda precisa melhorar muito. Se estivessem dando frutos, concluiríamos daí que isso faz jus à técnica que estávamos aplicando. Deveríamos considerar a evangelização como uma atividade que envolve uma luta entre a nossa vontade e a vontade daqueles a quem estamos nos dirigindo, batalha esta, cuja vitória vai depender do poder de fogo da nossa linha de frente e da precisão dos seus efeitos calculados. Assim, a nossa filosofia de evangelização ficaria terrivelmente parecida com uma filosofia de "lavagem cerebral". E ficaríamos totalmente sem argumentos, se tal semelhança se revelasse como fato, para sustentar
este, como sendo um conceito apropriado de evangelização. ''Pois este de fato poderia até ser um conceito apropriado de evangelização, se fosse nossa a responsabilidade pela produção em série de convertidos.
Isto nos alerta para o perigo de estarmos ignorando as implicações práticas da soberania de Deus. Estamos certos em reconhecer nossa responsabilidade de nos engajar em uma evangelização agressiva. Temos toda razão em desejar a conversão dos incrédulos. Também está certo querer que a nossa apresentação do evangelho seja a mais clara e convincente possível. Se preferíssemos um número ínfimo de casos isolados
de conversões, e pouco nos importasse se a nossa proclamação de Cristo tem atingido os lares ou não, certamente haveria algo de errado conosco. O que não está certo é assumirmos sobre nós mais do que Deus nos concedeu fazer.
Não está certo quando nos consideramos como responsáveis pela obtenção de convertidos, olhando para o nosso próprio espírito empreendedor e para nossas técnicas, para realizar o que somente Deus pode realizar. Tal procedimento significa uma intromissão no ofício do Espírito Santo e uma exaltação da nossa própria pessoa como os agentes causadores do novo nascimento. O ponto que não podemos deixar de reconhecer em tudo isso é: a única forma que temos de nos prevenir contra a culpa de um erro destes é
deixar o nosso conhecimento sobre a soberania de Deus controlar a forma como planejamos, oramos e trabalhamos a seu serviço. Pois em todas aquelas áreas nas quais conscientemente não confiamos em Deus, inevitavelmente confiamos em nós mesmos. O espírito de autoconfiança é uma influência maligna sobre a evangelização. Esta será, contudo, a consequência inevitável de esquecermos a soberania de Deus na conversão de almas.
Mas existe uma tentação oposta que também nos ameaça, a saber: A tentação de nos preocuparmos exclusivamente com a soberania divina. Certos cristãos têm os pensamentos constantemente presos a reflexões acerca da soberania de Deus. Esta é uma verdade muito valiosa para eles. Ela lhes veio quase inesperadamente, quem sabe, e com a força de uma revelação marcante. Todos eles concordariam que ela representou uma verdadeira revolução copernicana em sua perspectiva das coisas, e que isso mudou totalmente o centro de seu universo pessoal. Anteriormente, admitem eles agora, o homem representava o centro do universo, e Deus era mantido na periferia. Eles o imaginavam como um Espectador dos eventos em seu próprio mundo e não, como o seu próprio Autor. Imaginavam eles que o fator determinante de todo e qualquer acontecimento era a forma de procedimento do homem, em vez de o plano de Deus para com o mesmo. Eles consideravam a felicidade dos seres humanos como a coisa mais interessante e importante na criação, tanto para Deus quanto para eles mesmos. Mas agora reconhecem que esta visão antropocêntrica era pecaminosa e anti-bíblica; compreendem que, de certa forma, todo o propósito da Bíblia é derrubar esta ideia, e que livros como os de Deuteronômio, Isaías, o evangelho de João e Romanos reduzem-na a frangalhos em praticamente cada capítulo. 
 Reconhecem agora que, doravante, é Deus quem deve ser o centro dos seus pensamentos e preocupações, exatamente como ele é, na verdade o centro em seu próprio mundo. Só agora é que eles sentem a vigorosa força da famosa primeira resposta do Breve Caterismo de Westminster: "O fim principal do homem é glorificar a Deus e (em assim fazendo e assim procedendo) gozá-lo para sempre." Agora eles enxergam que o caminho certo para encontrar a felicidade que Deus promete não é buscando-a como fim em si mesmo, mas esquecer-se a si mesmo no afã cotidiano de buscar a glória de Deus, fazer a sua vontade e provar do seu poder em meio aos altos e baixos, as situações estressantes e as tensões do dia a dia. Eles descobriram que é a glória e o louvor de Deus que deve absorvê-los totalmente de agora em diante, por todo o tempo e por toda a eternidade. Eles veem que o propósito de toda a sua existência é que eles adorem e exaltem a Deus com todo o seu coração e por toda a vida. Em toda e qualquer circunstância, portanto, a grande questão é essa: o que contribuirá mais para a glória de Deus? O que eu devo fazer para que Deus possa ser exaltado nesta situação? Eles reconhecem ainda, ao se fazerem esta pergunta, que por mais que Deus use os homens como meios para realizar os seus propósitos, em última análise, nada depende do homem; tudo depende, antes, do Deus que levanta homens para fazer sua vontade. Eles percebem também, que Deus controla cada situação muito antes de seus servos entrarem em cena, e que ele continua controlando e realizando a sua vontade por meio de cada ato que eles fazem  -  por meio de seus erros e falhas, não menos do que por meio do seu sucesso pessoal. Eles reconhecem, portanto, que não precisam jamais temer pela arca de Deus, como Uzá temeu, pois Deus certamente sustentará sua própria causa. Eles perceberam que jamais terão que cometer o mesmo erro de Uzá, de achar que são capazes de grandes coisas, e realizar a obra de Deus por meios escusos, por temerem que de outro modo ela não poderia jamais ser feita. Eles se dão conta de que, visto que Deus está sempre no controle, não precisam nunca ter medo de que possam vir a expô-lo a danos e perdas, se eles se limitarem a servi-lo da forma como ele determinou. 
Eles perceberam que imaginar qualquer outra coisa seria, com efeito, como que negar a sua sabedoria, ou a sua soberania, ou ambas as coisas. Eles reconhecem, ainda, que o cristão nunca deve imaginar, nem por um momento, que é indispensável para Deus, ou autorizado a comportar-se como se o fosse. O mesmo Deus que o enviou e se compraz em trabalhar junto com ele, pode fazer tudo sozinho. Ele precisa estar disposto a se gastar e ser gasto nas tarefas que Deus lhe deu para cumprir, mas ele jamais deve supor que se Deus o deixar de lado e usar um outro no seu lugar, a perda seria irreparável para a Igreja. Sob hipótese alguma ele deve dizer a si mesmo "a obra de Deus entrará em colapso sem mim e tudo o que eu estou fazendo" - pois não há nenhum motivo para pensar assim.
Nunca é verdade que Deus estaria perdido sem você ou eu. Todos aqueles que começaram a entender a soberania de Deus, acabam reconhecendo isso tudo, e assim, ficar em segundo plano em toda a sua obra para Deus. Com isso eles trazem um testemunho prático à sua fé, de que Deus é grande e reina, e procuram humilhar-se a si mesmos e agir de uma forma que represente, por si mesmo, o reconhecimento de que todo e qualquer fruto que os seus serviços possam vir a gerar, depende exclusivamente de Deus e não dele mesmo. Até este ponto eles estão certos.
Acontece que, na verdade, eles estão se expondo precisamente ao perigo oposto do acima discutido. Em seu zelo por glorificar a Deus, reconhecendo a sua soberania em graça e recusando-se imaginar que o seus serviços são indispensáveis para ele, eles caem na tentação de perder de vista a responsabilidade da Igreja na evangelização. Sua tentação está em pensar o seguinte: "Está certo, o mundo é incrédulo; mas, certamente, quanto menos fizermos para mudar isso, mais Deus será glorificado, quando ele intervir para restaurar a situação. O mais ,importante a fazer é tomar o cuidado de deixar toda a iniciativa na suas boas mãos." Eles são tentados, portanto, a suspeitar de todo empreendimento na evangelização, quer seja ele organizado ou pessoal, como se houvesse nisso alguma coisa que essencial e necessariamente exaltasse o homem. São assombrados pelo temor de correr na frente de Deus e de sentir que não há nada mais urgente do que guardarem-se contra a possibilidade de cometer tal erro.
Possivelmente o exemplo clássico desta forma de pensamento tenha ocorrido há dois séculos, com o diretor da fraternidade de ministros em que William Carrey propôs à fundação de uma agência missionária: "Sente-se, meu jovem," disse o ancião; "quando Deus quiser converter os pagãos , ele o fará sem a sua ajuda ou a minha!" A ideia de tomar a iniciativa de sair por aí, ganhando pessoas de todas as nações para Cristo lhe parecia imprópria e, a bem da verdade, até presunçosa.
Agora, é preciso que pensemos duas vezes, antes de condenarmos aquele senhor idoso. Ele não estava totalmente destituído de razão. Ao menos ele havia entendido que é Deus quem salva, que ele salva de acordo com o seu próprio propósito, e não aceita receber ordens do homem nesse assunto. Ele compreendeu ainda, que jamais devemos achar que, sem a nossa ajuda, Deus seria impotente. Em outras palavras, ele aprendeu a levar a soberania de Deus absolutamente a sério.
O seu equívoco foi que ele não estava tratando com igual seriedade a responsabilidade evangelística da Igreja. Ele se esqueceu de que o meio pelo qual Deus salva os homens é enviando os seus servos para lhes falar do evangelho, e que a Igreja foi encarregada de ir por todo o mundo precisamente com este propósito. Por outro lado, não devemos esquecer-nos disso. A ordem de Cristo significa que todos nós deveríamos dedicar todos os nossos recursos de criatividade e iniciativa à tarefa de tornar o evangelho conhecido, por todos os meios possíveis para todas as pessoas possíveis. O pouco caso e passividade com relação à evangelização serão, portanto, sempre considerados atitudes indesculpáveis. A doutrina da soberania divina estaria sendo brutalmente mal aplicada se, ao invocá-la, provocássemos uma redução da urgência, pressa, prioridade e coerção comprometedora do imperativo evangelístico. Nenhuma verdade revelada pode ser invocada para atenuar o pecado. Deus não nos ensinou a realidade de seu governo com o intuito de nos oferecer uma desculpa para negligenciarmos suas ordens.
Na parábola dos talentos, que nos foi contada por nosso Senhor, os servos "bons e fiéis" foram aqueles que promoveram os interesses do seu senhor, fazendo o uso legal mais empreendedor que puderam com o que lhes foi confiado. No caso do servo que enterrou o seu talento e não fez nada mais além de mantê-lo intacto, imaginando, sem dúvida, que com isso ele estava sendo extremamente bom e fiel, mas o seu senhor o julgou servo "mau", "negligente" e "inútil". Pois o que Cristo nos deu para nosso uso precisa ser usado de forma adequada; não basta simplesmente enterrar o talento. Devemos aplicar isso a nossa mordomia do evangelho.
 A verdade sobre a salvação nos foi revelada, não, para que simplesmente a preservássemos (embora certamente devamos fazer isso), mas também, e em primeira instância, para que nós a espalhássemos. A razão de ser da luz não é de ficar escondida debaixo de algum recipiente. Ela foi feita para brilhar e a nossa tarefa é cuidar para que ela brilhe sempre "Vós sois a luz do mundo ..." diz o Senhor.14 Todo aquele que deixar de dedicar-se à evangelização, de todas as maneiras que puder, estará assim, portanto, deixando de cumprir com o seu papel de bom e fiel servo de Jesus Cristo.
Como resolvemos este conflito? Preocupando-nos em crer em ambas as doutrinas com todas as nossas forças, e mantendo ambas constantemente diante de nós, para a orientação e governo das nossas vidas. Orientados por esta máxima, podemos avançar mais um pouco agora. No que segue, tentaremos tomar ambas as doutrinas absolutamente a sério, da forma como a Bíblia o faz, e enxergá-las em sua relação bíblica positiva. Não devemos contrapô-las uma à outra, já que a Bíblia não as dispõe uma contra a outra. Nem devemos qualificar ou modificar ou diluir qualquer uma delas em detrimento da outra, uma vez que a Bíblia também não o faz. O que a Bíblia faz é afirmar ambas as verdades, lado a lado, nos termos mais vigorosos e claros, como dois fatos finais; eis aí, portanto o posicionamento que devemos assumir em nosso pensamento. Quando perguntaram a C. H. Spurgeon certo dia, se ele seria capaz de reconciliar estas duas verdades uma com a outra, ele respondeu: "Eu nem ousaria tentá-lo", "Eu nunca reconcilio amigos." Amigos? – isso mesmo, amigos. Este é o ponto que precisamos entender. Na Bíblia, não há nenhuma inimizade entre a soberania divina e a responsabilidade humana. Elas não são vizinhas briguentas; elas não estão em um estado de guerra fria interminável uma com a outra. Na verdade elas são amigas e trabalham juntas.
Espero que o que vou dizer agora acerca da evangelização ajude a tornar isso mais claro.
continução no proximo texto...
retirado do livro "A Evangelização e a Soberania de Deus", 2002, Editora Cultura Cristã

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

SOBERANIA DIVINA E RESPONSABILIDADE HUMANA
         O objetivo do presente estudo é refletir sobre a natureza do trabalho evangelístico do cristão, à luz da pressuposição amplamente aceita, de que Deus é soberano na salvação. Agora, temos que reconhecer logo de início que esta tarefa não é nada fácil. Os temas tratados pela teologia costumam conter armadilhas aos desavisados, pois a verdade de Deus nunca é exatamente como o homem espera que seja e nosso presente assunto é mais perigoso do que a maioria. Isto porque, ao lidar com ele, temos que estar prontos para lidar com um antonôrnio na revelação bíblica, e, em ocasiões como esta, nossas mentes finitas e decaídas tendem, mais do que frequentemente, se perder.
           O que é um antinômio? O Shorter Oxford Dictionary (Pequeno Dicionário Oxford) a define-a como "uma contradição entre conclusões que parecem igualmente lógicas, razoáveis ou necessárias".' Para nossos propósitos, entretanto, esta definição não é muito precisa; a definição deveria começar falando em "uma contradição aparente". Pois a questão toda de um antinômio - em qualquer caso no campo da teologia - é que não se trata de uma contradição real, embora assim pareça. Trata-se, antes, de uma aparente incompatibilidade entre duas verdades evidentes. Um antinômio existe quando dois princípios, postos lado a lado, aparentemente são irreconciliáveis, ainda que ambos sejam inegáveis. Há razões irrefutáveis para se crer tanto numa quanto na outra; ambas repousam sobre claras e sólidas evidências, mas você considera totalmente misterioso como é que elas podem ser conciliadas uma com a outra.
            Você consegue até reconhecer que cada uma deve ser verdadeira se tomada isoladamente, mas não consegue ver como é que as duas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Acontece que a evidência está aí, de modo que nenhuma das duas perspectivas pode ser descartada em favor da outra. Contudo, nem tão pouco é possível reduzir uma à outra ou explicar uma em função da outra; as duas posições aparentemente incompatíveis devem ser igualmente sustentadas e ambas devem ser tratadas como verdade. Sem dúvida uma exigência dessa confunde profundamente a nossa mente sistemática, mas não há nada a se fazer se quisermos ser fiéis aos fatos.
       Um antinômio não é nem dispensável, nem compreensível. Não se trata de uma figura de linguagem, e sim, de uma relação observada entre duas declarações objetivas. Trata-se de algo que os próprios fatos nos impõe. É inevitável e insolúvel. 
          O que, então, se deve fazer com um antinômio? É preciso aceitá-lo como ele é, e aprender a conviver com ele. Portanto, é preciso ter o cuidado de não fazê-las disputarem entre si, nem tirar quaisquer conclusões, a partir de qualquer uma delas, que confrontem diretamente um princípio ao outro (pois esse tipo de dedução certamente não é nada razoável). 
        O antinômio que nos interessa particularmente aqui é a aparente oposição entre a soberania divina e a responsabilidade humana, ou (colocando-o de forma mais bíblica) entre o que Deus faz como Rei e o que ele faz como Juiz. As Escrituras nos ensinam que, como Rei, ele ordena e controla todas as coisas, inclusive todas as ações humanas, segundo o seu propósito eternos. As  Escrituras ensinam ainda que, na condição de juiz, ele considera todo ser humano responsável pelas escolhas que faz e as formas de procedimento a que segue. Assim, os ouvintes do evangelho são responsáveis por suas reações e se acaso rejeitarem as boas novas, tornar-se-ão culpados de incredulidade "O que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus."Por outro lado, Paulo, a quem foi confiado o evangelho, é responsável por pregá-lo e se ele negligenciar sua comissão, será punido por infidelidade "... pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o e~angelho!"
          A soberania de Deus e a responsabilidade humana nos são ensinadas como se fossem coisas que andam lado a lado, numa e na mesma Bíblia, aparecendo muitas vezes até na mesma passagem. As duas coisas nos são garantidas, portanto, pela mesma autoridade divina; ambas são, portanto, verdadeiras. Segue-se daí que elas devem ser mantidas lado a lado, ao invés de jogadas uma contra a outra. O homem é um agente moral responsável, ainda que seja, ao mesmo tempo também, controlado pela divindade. O homem é divinamente controla-do, embora seja também, um agente moral responsável. A soberania de Deus é uma realidade, e a responsabilidade do homem é igualmente uma realidade. Eis aí o antinômio que nos foi revelado, em cujos termos devemos fazer nossa reflexão acerca da evangelização.
       É claro que para as nossas mentes finitas, isso tudo é inexplicável. Soa-nos como uma contradição e a nossa primeira reação é de nos queixar de que isso tudo é um absurdo. Paulo registra esta queixa em Romanos 9: "Tu, porém, me dirás: De que se queixa ele (Deus) ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade?" (Rm 9.19). Se, como nosso Senhor, Deus ordena todas as nossas ações, como é que pode ser razoável ou justo para ele atuar igualmente como o nosso Juiz, condenando nossas falhas? Observe como Paulo responde. Ele não tenta demonstrar o quanto a atuação de Deus é apropriada; ao invés disso, ele censura o espírito por trás desta questão. "Quem és
tu, ó homem, para discutires com Deus?" 
          O que o queixoso precisa aprender é que ele, uma criatura e um pecador, não tem direito algum de apontar para qualquer falta nos caminhos revelados de Deus. As criaturas não estão credenciadas para registrar queixas contra o seu Criador. Como Paulo prossegue dizendo, a soberania de Deus é plenamente justa, pois o seu direito de dispor de suas criaturas é absluto. Um pouco antes, nesta mesma epístola, ele demonstrou que o julgamento de Deus contra os pecadores também é totalmente justo, já que os nossos pecados merecem amplamente sua condenação. Cabe a nós, diz ele, reconhecer estes fatos e adorar a justiça de Deus, tanto como Rei quanto como Juiz; não especular sobre como a sua justa soberania pode ser consistente com o seu justo julgamento, e certamente não por em dúvida a justiça de qualquer dos lados da questão, só porque achamos que o dilema de suas relações mútuas é demais para nossas cabeças! Nossas especulações não são a medida do nosso Deus.
        O Criador nos disse que ele, ao mesmo tempo, é um Senhor soberano e um Juiz justo, e isso deveria ser suficiente para nós. Por que é que hesitamos tanto em aceitar a sua palavra? Será que não somos capazes de confiar no que ele diz? Não temos razão nenhuma para ficar surpresos ao encontrar mistérios deste tipo na Palavra de Deus. Pois o Criador é incompreensível para as suas criaturas. Um Deus que nós pudéssemos entender de forma exaustiva e cuja revelação de si mesmo não nos confrontasse com algum tipo de mistério, seria um Deus à imagem e semelhança do homem e, por isso mesmo, seria um Deus imaginário, mas de modo algum o Deus da Bíblia. Pois o que o Deus da Bíblia diz é o seguinte: "Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR" (Is 55.8s.). O antinômio com que nos deparamos aqui é apenas um dentre muitos que a Bíblia contêm. Podemos ter certeza de que todos eles acabam encontrando a sua reconciliação na mente e conselho de Deus, e podemos ter certeza de que nós mesmos os entenderemos no céu. Mas, enquanto isso, precisamos ser sábios para manter com igual ênfase as duas verdades aparentemente conflitantes neste caso, mantendo-as lado a lado na relação em que a própria Bíblia as coloca e reconhecer que estamos diante de um mistério que não devemos esperar ser capazes de solucionar nesta vida.
          Falar assim é fácil, mas não é nada fácil praticá-lo. Pois nós detestamos ter antinômios como estes rondando nossas cabeças. Preferimos muito mais embrulhar tudo em pacotes intelectuais bem amarrados, tendo aparentemente dissipado todos os mistérios e expurgados todos os pensamentos que
pairavam soltos no ar. Portanto, encontramo-nos constantemente tentados a nos livrar dos antinômios em nossas mentes por meios ilegítimos, suprimindo ou rejeitando uma verdade, supostamente em favor da outra, e por causa de uma teologia mais organizada. É o que acontece neste caso. O perigo que corremos é de descartar e mutilar uma verdade, pelo modo como enfatizamos a outra, de defender de tal modo a responsabilidade do homem, que acabamos ignorando a soberania de Deus,
ou então, de afirmar tanto a soberania de Deus que acabamos destruindo a responsabilidade do homem. Ambos os equívocos devem ser evitados. 
          Vale a pena, portanto, refletirmos um pouco mais sobre o modo pelo qual perigos como estes podem surgir no contexto específico da evangelização. Existe, antes de mais nada, o perigo da preocupação exclusiva com não resposabilidade humana. Como vimos anteriormente, a responsabilidade humana é um fato e um fato bastante sério. A responsabilidade do homem em relação a seu Criador, na verdade, é o fato mais essencial da sua vida, mas que por outro lado também não se pode levar a sério demais. Deus nos criou como agentes morais responsáveis e ele jamais nos tratará como se fôssemos inferiores a isso. A sua Palavra dirige-se a cada um de nós individualmente e cada um é responsável pela maneira como responde - por sua atenção ou falta de atenção, por sua fé ou incredulidade, por sua obediência ou desobediência. Ninguém poderá jamais se esquivar da responsabilidade devida à sua reação em relação à revelação de Deus. Afinal, vivemos sob a sua lei.    Teremos que responder a ele por nossas vidas. 
          O homem sem Cristo é um pecador culpado, que deve responder diante de Deus pelo fato de ter quebrado a sua lei. Eis porque ele precisa do evangelho. Quando ele ouve falar do evangelho, passa a ser responsável pela decisão que toma quanto ao assunto. Isso o coloca diante da opção pela vida ou pela morte, a mais relevante decisão com a qual um homem jamais poderia se deparar.
         Quando apresentamos o evangelho a um homem não convertido, é muito provável que, sem compreender plenamente o que está fazendo, ele tentará fechar os próprios olhos para a seriedade desse assunto, e por isso justificar se por fazer pouco caso de tudo isso. É preciso que nessas horas usemos de todos os meios lícitos a nosso alcance para fazê-lo dar-se conta da seriedade da decisão que está enfrentando, e pressioná-lo a não se permitir tratar um assunto tão sério de forma irresponsável. 
           Quando pregamos sobre as promessas e convites do evangelho, e oferecemos Cristo a homens e mulheres pecaminosos, é parte da nossa tarefa de enfatizar e reforçar o fato de que eles são responsáveis diante de Deus pelo modo como respondem às boas novas da sua graça. Nenhum pregador jamais poderá frisar este ponto demasiadamente. Nós mesmos temos responsabilidade semelhante de tornar o evangelho conhecido. O mandamento de Cristo a seus discípulos: "Ide, portanto, fazei discípulos ..." (Mt 28.19), foi transmitido a eles em sua capacidade representativa; esta é a grande comissão de Cristo, não apenas para os seus apóstolos mas para toda a Igreja. Evangelizar é nada mais do que uma responsabilidade inalienável de toda comunidade cristã e de cada cristão.
       Todos nós estamos sob a obrigação de nos dedicarmos à divulgação das boas novas, e de usarmos toda a nossa criatividade e espírito empreendedor para divulgar esta nova por todo o mundo. Todo cristão deve, portanto, estar constantemente sondando a sua consciência, perguntando a si mesmo se está fazendo tudo o que poderia ser feito neste campo. Pois esta também é uma responsabilidade que não pode ser desprezada. 
           É preciso, portanto, que a noção da responsabilidade humana seja levada extremamente a sério, uma vez que ela afeta tanto o pregador quanto o ouvinte do evangelho. Mas não devemos permitir que isso nos faça descartar a noção da soberania divina de nossas cabeças. Ao mesmo tempo em que é preciso lembrar sempre que proclamar a salvação é responsabilidade nossa, não podemos jamais esquecer que é Deus quem salva. É Deus quem conduz homens e mulheres sob o som do evangelho, e é Deus quem os conduz à fé em Cristo. O nosso trabalho evangelístico é o instrumento que ele usa para este fim, mas não está no instrumento o poder que conduz à salvação.
            O poder está nas mãos daquele que usa o instrumento. Não devemos jamais, em nenhum momento, esquecer disso. Pois, se esquecermos que é prerrogativa de Deus prover resultados, quando o evangelho é pregado, começamos a pensar que é responsabilidade nossa garanti-los. E, se esquecermos que somente Deus pode dar a fé, acabaremos pensando que, em última instância, a conversão das pessoas não depende de Deus, mas de nós mesmos, e que o fator decisivo para tanto é a forma como nós evangelizamos. E esta linha de raciocínio, se levada consistentemente as últimas conseqüências, acabará nos levando para bem longe do caminho.
                 Analisemos esse ponto com mais extensão em outra oportunidade.

sábado, 19 de janeiro de 2013



RESOLVENDO UMA ANTIGA QUESTÃO ENTRE CALVINO E ARMINIO

CALVINO              E             ARMÍNIO
         Não pretendo aqui ficar perdendo tempo, tentando provar-lhes a verdade genérica de que Deus é o soberano mundo criado por ele. Isso é desnecessário, pois eu sei que, se você é cristão, já crê nisso. E como é que eu sei disso?É que eu sei que, se você é cristão, então certamente você ora; e o que sustenta as suas orações é o reconhecimento da soberania de Deus. Pela oração, intercede por certas coisas e agradece por outras. E por que você age assim? Porque reconhece que Deus é o autor e fonte de todo o bem que já tem experimentado na vida, e de todo o bem que espera para o futuro. Esta é a filosofia essencial da oração cristã. A oração do cristão não é nenhuma tentativa de forçar a mão de Deus, mas um humilde reconhecimento da nossa impotência e dependência. Quando nos colocamos de joelhos, é porque sabemos muito bem que não somos nós que controlamos o mundo; não temos, portanto, o poder de satisfazer as nossas necessidades pela nossa própria força; tudo de bom que desejamos para nós mesmos e para os outros deve ser solicitado das mãos de Deus, quando o obtemos, se é que o obtemos, será como um presente das suas mãos. Se isso é verdade até mesmo no que se refere ao nosso pão diário (e a oração do Senhor nos ensina que é), muito mais, no que diz respeito aos bens espirituais. Isso tudo é claro e radiante para nós quando oramos de verdade, não importa o quanto possamos contradizer-nos por argumentos posteriores. Consequentemente, portanto, o que fazemos toda vez que oramos, é confessar a soberania de Deus e a nossa própria impotência. O próprio fato do cristão orar é, assim, prova de que crê, sim, na soberania do seu Deus.
            Também não estarei perdendo tempo, repito, provando-lhes a verdade particular de que Deus é soberano na salvação. Pois nisto você também já crê. Há dois fatos que apontam para isso. Em primeiro lugar, você dá graças a Deus por sua conversão. Agora, por que será que você procede assim? É que você sabe muito bem, no fundo de seu coração, que Deus foi inteiramente responsável por ela. Não foi você que se salvou; ele salvou você. As suas ações de graça são, por si só, uma forma de reconhecimento de que a sua conversão não foi sua própria obra, mas obra dele. Você não atribuiu a um mero acaso ou acidente, o fato de ter se deixado influenciar pelo Cristianismo, quando isso aconteceu. Você não atribui a um mero acaso ou acidente o fato que frequentou uma igreja evangélica, ouviu o evangelho cristão, que tinha amigos cristãos e, talvez, até uma família cristã, que a Bíblia chegou às suas mãos, que reconheceu sua própria necessidade de Cristo, e que acabou crendo nele como o seu Salvador. Você não atribui o fato de ter se arrependido e crido à sua própria sabedoria ou prudência, ou a algum juízo salutar ou bom senso. É possível até que, na época em que você estava buscando a Cristo, você tenha labutado e se empenhado ao máximo, tenha lido e ponderado bastante, mas todo este conjunto de esforços não torna a sua conversão resultado da sua obra. O seu ato de fé, quando se comprometeu com Cristo, foi obra sua no sentido de que foi você quem o realizou; mas isso não quer dizer que você tenha salvado a si mesmo. Na verdade, nunca lhe passou pela cabeça a ideia de que você tenha salvo a si mesmo.
Ao olhar para trás, você assume como sua a vergonha de sua cegueira, indiferença, obstinação e atitudes evasivas passadas diante da mensagem do evangelho; mas você não dá nenhum tapinha nas suas costas por ter sido conquistado por este Cristo tão insistente. Você jamais sonharia em repartir entre você e Deus as glórias da sua salvação. Você jamais, por um momento sequer, supôs que a contribuição decisiva para a sua salvação foi sua própria e não de Deus. Você nunca disse a Deus que, apesar de estar muito grato pelos meios e oportunidades da graça que ele lhe deu, você se dá conta de que na verdade não tem que agradecer a ele, mas a si mesmo, pelo fato de ter respondido ao seu chamado. O seu coração se revolta só em pensar em falar com Deus nestes termos. Na verdade, você lhe agradece sinceramente pelo dom da fé e do arrependimento, quanto pela dádiva de ter um Cristo em quem confiar e para quem se voltar. É por aí que seu coração o tem conduzido, desde que você se tornou um cristão. Você atribui a Deus toda a glória por todas as coisas envolvidas em sua salvação, e você tem consciência da blasfêmia que seria, se você se recusasse a agradecer-lhe por tê-lo conduzido à fé. Assim, você reconhece a soberania da graça divina pela forma como você pensa e dá graças por sua conversão. E qualquer cristão no mundo age da mesma maneira.
Neste contexto, seria bastante esclarecedor refletirmos sobre o testemunho de Charles Simeon acerca da sua conversão, através de João Wesley, em 20 de Dezembro 1784 (a data encontra se especificada no Wesley’s Jounal): "Meu caro, eu entendo que você é o que chamam de arminiano; e certas pessoas me chamam de calvinista; e por isso mesmo, suponho que as pessoas esperam ver-nos prontos para brigar um contra o outro. Mas, antes de eu consentir em que se dê início ao combate, com sua licença, gostaria de lhe fazer algumas perguntas. Diga-me, por favor: você sente que é uma criatura tão depravada, mas tão depravada que nunca teria pensado em voltar para Deus, se Deus já não tivesse posto isto em seu coração antes?" "É verdade, diz o veterano”, é isso mesmo. " "E você também se sentiria totalmente perdido, se tivesse que recomendar-se a Deus, baseado em alguma coisa que você pudesse fazer; e considera a salvação como algo que se deu exclusivamente pelo sangue e justiça de Cristo?"" Sim, exclusivamente por Cristo. " Mas então, meu caro, partindo do pressuposto de que você foi inicialmente salvo por Cristo, será que ainda assim você não teria que subsequentemente, de uma forma ou de outra, salvar-se a si mesmo por suas próprias obras? " " É claro que não, pois eu devo ser salvo por Cristo do princípio ao fim". "Admitindo, então, que foi inicialmente convertido pela graça de Deus, você, de um modo ou de outro, deve manter-se salvo por seu próprio poder?" " Não. " "Quer dizer, então, que você deve ser sustentado a cada hora e momento por Deus, tal como uma criança nos braços de sua mãe? " " Sim, absolutamente." "E quer dizer que toda a sua esperança está depositada na graça e misericórdia de Deus para sustentá-lo, até que venha o seu reino celestial? " " Certamente, eu estaria completamente desesperado, se não fosse ele." "Então, meu caro, com sua permissão vou levantar novamente a minha espada; pois isto não é nada mais nada menos do que o meu Calvinismo; eis aí as minhas teses da eleição, da justificação pela fé, da perseverança final: eis aí, em essência, tudo o que eu defendo, e como o defendo; portanto, se lhe parecer bem, ao invés de ficar tentando descobrir termos ou expressões que sejam bom motivo de briga entre nós, unamo-nos cordialmente naquelas coisas em que concordamos."
Mas há outra maneira, pela qual reconhecemos a soberania de Deus na salvação. Você ora pela conversão dos outros. Agora, em que termos é que você intercede por eles?Você se limita a pedir que Deus os conduza só até o ponto em que eles sejam capazes de se salvarem a si mesmos, independente dele? Não acho que você pense assim. Acho que o que você deve fazer é orar em termos categóricos para que Deus, simplesmente e muito decisivamente, os salve: que ele abra os olhos de seu entendimento, amoleça seus corações duros, renove suas naturezas e mova suas vontades para que recebam o Salvador. Você roga a Deus que opere neles tudo quanto for necessário para a salvação deles. Jamais lhe passaria pela cabeça considerar, na sua oração, que, na verdade, você não está pedindo que Deus os conduza à fé, porque reconhece que Ele não é capaz de fazê-lo. Nada disso! Quando você ora pelas pessoas não convertidas, você o faz pressupondo que é no poder de Deus que eles são conduzidos à fé. Você roga para que Ele faça precisamente isso sua confiança em pedir repousa sobre a certeza de que ele é capaz de fazer o que você pede. E, de fato, ele é: esta convicção que motiva suas intercessões É a verdade do próprio Deus, escrita em seu coração pelo Espírito Santo. Na oração, portanto (e quando o cristão ora está em seu estado mais são e sábio), você sabe que é Deus quem salva os homens; você sabe que o que faz os homens se voltarem a Deus é a própria obra graciosa dele de atraí-los para junto de si; e o conteúdo de suas orações é determinado por este conhecimento. Assim, você reconhece e confessa a soberania da graça de Deus através de sua prática de intercessão, da mesma forma que pela ação de graças por sua própria conversão. Assim procedem todos os cristãos, em toda parte.
Há uma controvérsia milenar no meio da Igreja sobre se Deus é realmente o Senhor em relação à conduta humana e à fé salvadora ou não. O que foi dito mostra-nos que tipo de postura que devemos assumir diante desta controvérsia. As coisas não são do jeito que parecem. Pois não é verdade que alguns cristãos crêem na soberania divina, enquanto outros sustentam uma tese contrária. A verdade é que todos cristãos creem  na soberania divina, acontece que alguns não estão conscientes de que creem nisso, equivocadamente imaginam e insistem que a rejeitam. Qual a razão para este lastimável estado de coisas? A causa de tudo isso é a mesma que se encontra na maior parte dos casos de equívoco da Igreja - a influência de especulações racionalistas, o desejo apaixonado por manter uma coerência sistemática, a relutância em reconhecer a existência do mistério e em deixar Deus ser mais sábio do que os homens, e a consequente  subordinação das Escrituras às supostas exigências da lógica humana. As pessoas até reconhecem que a Bíblia ensina que o homem tem responsabilidade pelas suas ações; mas não veem (e os homens, na verdade, não podem ver) como isso é coerente com a soberania do Senhorio de Deus sobre essas mesmas ações. Elas não se conformam em deixar as duas verdades conviverem lado a lado, como elas fazem nas Escrituras, mas partem logo para a conclusão precipitada de que, para sustentar a verdade bíblica da responsabilidade humana,são obrigados a rejeitar a doutrina igualmente bíblica e verdadeira da soberania divina, e a inventar uma explicação para o grande número de textos que a ensinam. O desejo de reduzir o conteúdo da Bíblia, eliminando todos os mistérios, é uma tendência natural das nossas mentes corruptas, e nãoé surpreendente que até homens considerados bons já tenham caído vítimas disso. Daí toda esta insistente e preocupante controvérsia. A ironia da situação, entretanto, é que quando perguntamos como é que os representantes de ambos os lados praticam a sua oração, torna-se claro que aqueles que professam negar a soberania de Deus, na verdade, creem tão fortemente nela quanto os que a defendem.
E como é que você ora? Você roga a Deus por seu pão diário? Você agradece a Deus por sua conversão? Você ora pela conversão dos outros? Se a resposta é "não", só posso dizer que acho que você ainda não nasceu de novo. Mas se a resposta é "sim" - bem, então isso prova que, não importa de que lado do debate sobre esta questão você diga que se colocou no passado, o fato é que, em seu coração, você crê na soberania de Deus tão firmemente quanto qualquer outra pessoa. Enquanto estivermos sobre nossos próprios pés, podemos até levantar vários argumentos em torno da questão, mas quando de joelhos, estamos todos de acordo. É este ponto de comum acordo,do qual as nossas orações são prova, que eu tomo como nosso ponto de partida.

(retirado do Livro A Evangelização e a Soberania de Deus 2002 Editora Cultura Cristã. Publicado em 1961 em inglês com o título  Evangelism and  Sovereign of  God  de J.I.Packer)